nos Cirurgiões-Dentistas que devem ocorrer por movimentos repetitivos, esforço físico e má postura. O profissional enfrenta problemas como, por exemplo, visão, perda auditiva induzida por ruído, ortopédicos e dermatológicos.
O que acontece é que, na maioria das vezes, essas doenças passam desapercebidas e, ainda, o profissional se acostuma com a dor ou incômodo e esquece de cuidar da saúde. O trabalho odontológico requer ações que exigem coordenação motora, raciocínio, discernimento, paciência, segurança, habilidade, delicadeza, firmeza, e objetividade que só serão possíveis de se ter se o Cirurgião-Dentista mantiver a boa saúde física que compromete a saúde psíquica.
Problemas musculares
O Cirurgião-Dentista pertence a um grupo profissional que possui um risco considerável de adquirir algum tipo de lesão por esforço repetitivo – LER e doenças osteomusculares relacionados ao trabalho - DORT. “Má ergonomia no trabalho, materiais inadequados, repetição de movimentos e esforço constante, dores articulares e musculares, dificuldade em manter o nível de excelência, diminuição da auto-estima esses são fatores que nos levam a um passo do estado depressivo. Nessa situação, podemos pensar em qualidade de vida? Talvez vivamos num estado de qualidade de sobrevivência e, nessa situação, todos os profissionais da saúde se incluem”, explica o professor Adjunto Doutor da Disciplina de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina do ABC – SP e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia - SBOT-SP (biênio 2009 -10) Edison Fujiki.
A maioria dos Cirurgiões-Dentistas, em virtude da utilização de instrumentos que não obedecem a requisitos ergonômicos, entre outros fatores, está submetida a condições adversas de trabalho, em que a dor e o desconforto estão presentes. Segundo Edison Fujiki, o Cirurgião-Dentista tem que ter “o conhecimento pleno do ambiente de trabalho, deve melhorar a ergonomia e adaptar às próprias características físicas e colocar os instrumentos de trabalho em locais fáceis de acessar durante o trabalho. Fazer exercícios regularmente, realizar alongamentos musculares nos intervalos de consulta, procurar diminuir ou minimizar o seu nível de estresse e procurar a orientação de um médico de sua confiança também são fundamentais”.
Um terço da população brasileira, ou seja, cerca de 60 milhões de pessoas, sofrem por problemas de coluna. A lombalgia, mais conhecida como “dor na região lombar”, é uma das principais causas de pedidos de licenças médicas pelos trabalhadores e tem como principais vilões à má postura e o excesso de movimentos repetitivos. Esses dados são confirmados em pesquisa da OMS, em que cerca de 80% da população sofre, ou vai sofrer, de lombalgia. Em 90% desses casos, o problema pode ser melhorado com técnicas específicas, aliadas a mudanças de hábitos. “A coluna, como um todo, é um dos pontos que mais e sobrecarrega e obriga o profissional a manter grupos musculares em constante tensão. Isso leva contraturas de grupos musculares, encurtamento musculares, sobrecarga e artrose futura na coluna cervical e, conseqüentemente, na dorsal e lombar”, diz Fujiki.
A DORT apresenta características heterogêneas de afecções osteomusculares relacionadas com o ambiente do trabalho e nível de estresse do paciente e acomete mais comumente o gênero feminino. “Inicia-se com sensação de cansaço, peso ou dores osteo-musculares relacionadas com o tipo de trabalho e à intensidade do esforço. Normalmente, a pessoa tem apenas uma sensação de cansaço ou conseqüente a um mau jeito e vai relegando, pois essa é a característica de todo profissional que trabalha em saúde. ‘Eu não fico doente', esse é o denominador comum”, explica o professor de Ortopedia e Traumatologia.
Existem alguns problemas mais comuns relacionados às doenças musculares que o Cirurgião-Dentista pode encontrar ao longo da profissão. De acordo com Edison Fujiki, são elas: ao nível do ombro, em posição constante de sobrecarga, semi-elevado, pode ocorrer tendinites, bursites e Síndrome do Impacto - alteração da musculatura do manguito rotador (musculatura que coordena os movimentos do ombro). Em situação extrema, ocorrem lesões e rupturas parciais ou totais. O cotovelo sofre com as epicondilites, principalmente pelos movimentos de prono-supinação (movimentos de torção do antebraço) com sobrecarga, causando dores de início insidioso. Ao nível do punho e mão, são freqüentes a Síndrome do Túnel do Carpo - dor, formigamento, sensação de peso, na palma da mão e, futuramente, pode atrofiar e perda de força da musculatura palmar, por compressão do nervo mediano. Ao nível do dorso do polegar e punho, pode ocorrer rangidos, dores, edemas e bloqueios de movimentos.
Problemas auditivos
Uma série de fatores pode influenciar a perda de audição por exposição ao ruído – PAIR. Sempre há uma relação entre o tempo e a intensidade sonora. O excesso de ruído no cérebro pode provocar queda na atividade motora geral. “Ainda é precoce dizer algo sobre o sistema nervoso central, uma vez que a área cortical primária e secundária da audição ainda não foi completamente estudada. Mas, não há indícios de que a perda de audição influencia de maneira importante na motricidade. Seu maior impacto é na comunicação“, diz o especialista em otorrinolaringologia e médico assistente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, Arthur Menino Castilho.
O ambiente profissional do Cirurgião-Dentista possui vários agentes agressores à audição como, por exemplo, caneta de rotação, micromotor, compressor, sugadores e ruídos externos. A PAIR só se manifesta quando o ruído é emitido de forma repetitiva ou durante um longo período de tempo. “Fatores como, por exemplo, a intensidade sonora, variam de um micromotor para outro de maneira que é difícil quantificar. A distância da fonte sonora também influencia na intensidade do som, de maneira que a distância que cada Cirurgião-Dentista fica do micromotor é diferente. Por fim, há áreas de atuação diferentes na Odontologia e nem todos os profissionais usam equipamentos que emitem ruído da mesma maneira”, explica Castilho.
O que caracteriza a PAIR é a dificuldade de entender o que está sendo falado (escuta, mas não entende), e a presença de zumbido. Em alguns casos pode também ocorrer vertigem, já que o labirinto e a cóclea - orgãos do equilíbrio e audição, respectivamente, estão intimamente conectados. “O processo ocorre de maneira tão gradual que o profissional demora muitos anos para perceber que este tipo de fenômeno está acontecendo e não é incomum os familiares se queixarem antes do próprio profissional perceber”, relata Arthur Menino.
É importante que os profissionais conheçam os efeitos nocivos dos elevados níveis sonoros e as medidas necessárias para a eliminação desses riscos. O mais correto é que seja realizado exame periódico para acompanhar a evolução e que permitam ser obtidos resultados e também ter medidas de controle para redução e eliminação do som, para assim, possibilitar ao Cirurgião-Dentista melhor condição de trabalho. “O profissional deve adotar medidas para equilibrar o preparo acústico da sala como, por exemplo, calibrar a turbina de alta rotação ou trocá-la identificar outras fontes geradoras de som como compressor de ar e condicioná-lo de maneira correta e também avaliar o possível uso de protetor auricular”, orienta o especialista.
Problemas dermatológicos
O Cirurgião-Dentista pode ter uma infinidade de problemas dermatológicos devido aos materiais que ficam expostos durante os procedimentos. A principal doença dermatológica que pode se manifestar no Cirurgião-Dentista, ao longo da profissão, é a dermatite de contato, tanto por irritantes primários (por lavar as mãos com maior freqüência) como também a sensibilização por manipular produtos e utilizar luvas. “O Cirurgião-Dentista pode evitar a dermatite de contato por irritante primário usando hidratante para que a mão não fique ressecada. Caso tenha alergia (dermatite por sensibilização), deve trocar o tipo de luva e máscara para outro material. O profissional também pode apresentar lesões pela candida albicons que causa um tipo de micose”, explica a especialista em Dermatologia e delegada brasileira do Colégio Ibero Latino-Americano de Dermatologia, Denise Steiner.
O Cirurgião-Dentista deve ficar atento a inflamações que possam ocorrer nas mãos, avermelhamento, coceira, descamação, pequenas bolhas e ferimentos na cutícula. Todas estas manifestações devem deixar o Cirurgião-Dentista de sobre-aviso para procurar os cuidados necessários. “Qualquer anormalidade na pele deve ser um sinal para que o Cirurgião - Dentista procure o dermatologista. O profissional deve lembrar que ele lida com todos os tipos de pessoas que podem ter as mais variadas doenças”, aconselha a dermatologista.
De acordo com Denise Steiner, para que o profissional tenha uma pele saudável e uma melhora na qualidade de vida é necessário alguns cuidados com a higiene. Para começar, deve-se usar sempre luvas para examinar um paciente mesmo antes de começar qualquer tratamento. Usar também máscaras, principalmente quando houver sangramento e o tratamento for prolongado. O material deve ser esterilizado de forma correta, seguindo as normas da Vigilância Sanitária. A mão deve ser sempre lavada após cada procedimento. O sabonete deve ser o mais neutro possível para evitar ressecamento e alergia de pele. Deve ser utilizado um creme hidratante leve e sem perfumes para manter a pele hidratada. A luva e a máscara devem ser descartadas a cada procedimento. Avental descartável também pode ser usado para tratamentos mais prolongados. Qualquer corte e inflamação na pele ou unha deve ser tratado e protegido. “Quando se trabalha com uma doença ativa, o profissional também põe em risco a saúde dos seus pacientes. É importante que o Cirurgião-Dentista ao notar doenças ativas como herpes, ou outros tipos de micose nos indivíduos que está tratando, pare o tratamento até que as doenças saiam de atividade”, aconselha a especialista.
Problemas oftalmológicos
Outro problema agravante que o Cirurgião-Dentista pode enfrentar é a perda de acuidade da visão e presença de corpo estranho nos olhos. “O profissional fica exposto a uma série de microorganismos que estão presentes na saliva do paciente. Por isso, precisa ficar atento aos problemas mais freqüentes nesse profissional, como os sintomas da falta de óculos, olho seco, conjuntivites, irritações e ‘corpo estranho',”, explica a presidente do Departamento de Oftalmologia da APM – Associação Paulista de Medicina e especialista em Oftalmologia, Rosana Cristina Pizarro.
O profissional precisa ter os olhos funcionando perfeitamente. Para isso, um exame oftalmológico anual com um Médico oftalmologista é conveniente, mesmo que esteja enxergando aparentemente bem. Nessa avaliação anual, será feito exame da acuidade visual, fundo de olho e pressão intra-ocular, para investigar problemas silenciosos que passam ocorrer.
Os sintomas mais freqüentes que o Cirurgião-Dentista pode apresentar nas vistas estão relacionados ao desconforto durante o período de trabalho, desde cansaço, olhos pesados, dores de cabeça, falta de nitidez da imagem, dificuldade em manter o foco até falta de concentração. Pode apresentar, também, secreção matinal, olho vermelho, ardor, sensação de corpo estranho durante e após o período de trabalho.
Segundo Noe de Marchi, especialista em Oftalmologia da APM, o profissional de Odontologia tem que ter alguns cuidados especiais para evitar os problemas otalmológicos. “Primeiramente, deve ser feita uma avaliação oftalmológica anual de rotina para avaliar a necessidade de grau. Usar óculos de proteção e diminuir a possibilidade de entrada de corpos estranhos (fragmentos, amálgama, resina etc), materiais líquidos das limpezas dentárias e mesmo sangue. E, se for necessário, usar óculos de proteção ultra-violeta”.
Qualidade de vida
do Cirurgião-Dentista
O segredo da qualidade de vida no trabalho está associado ao tempo dedicado ao lazer fora do consultório. Em tempos de modernidade e transformação constante, o profissional deve se atentar aos riscos da saúde e procurar outras formas de aliviar a tensão e as dores do dia-a-dia. Investir em qualidade de vida, praticar esportes, buscar momentos de lazer, ter prazer na realização da atividade profissional, extravasar o estresse e ter hábitos alimentares saudáveis são atividades que levam a uma vida mais saudável e, assim, poderão proporcionar bons momentos tanto na vida social quanto profissional.
Fonte: APCD Central |